A História da sua Vida e outros contos (Conto 1 de 8 – A torre da Babilônia) | A verticalidade do Conhecimento

Conto que abre cultuadíssimo livro de Ted Chiang discorre sobre a engenharia da famosa construção bíblica na cosmogênese hebraica em uma narrativa absurdista que dialoga com as limitações do conhecimento.

No velho testamento, a bíblia descreve o mundo como uma “placa” suspensa no vácuo de inexistência sob o abismo das águas primordiais do Tehom e abaixo da abóbada celeste do firmamento. Sua criação transcende a capacidade da compreensão humana tamanha engenhosidade divina do criador e isto deveria ser o ponto final de qualquer questionamento, mas não foi para o povo da Babilônia e a história que se sucede já nos é conhecida frente aos tragicidades punitivistas características da narrativa bíblica. Ted Chiang se apropria deste mito babilônico e promove uma metáfora de escalada da “Árvore do Conhecimento” pelo prisma da engenharia desta cosmogonia, narrando técnicas arquitetônicas da construção, o funcionamento social (há uma anedótica crítica ao capitalismo que envolve uma colher de pedreiro) e o conformismo espiritual dos povos que habitam a “estrada dos céus” ao tempo em que reforça o posicionamento da humanidade enquanto ferramenta essencial do conhecimento “divino”.

No conto seguimos a empreitada de Hillalum, um minerador elamita contratado para escavar a abóbada do céu visto que os babilônios enfim chegaram ao limite do firmamento. A jornada de subida perdura 4 meses, e nesse período somos interpostos ao funcionamento lógico e estético tanto da torre em si como do modelo mental geocêntrico de mundo descrito na bíblia. É uma narrativa fantástica que causa temor e estranhamento opressivo na leitura à medida que a criação vai se materializando aos olhos do protagonista. Hillalum por vezes questiona a ousadia dos homens de adentrar a morada de Javé em referência a eventos trágicos anteriores a exemplo do dilúvio como personificação da ira punitiva de Deus.

O desfecho é ciclicamente interpretativo que trilha uma jornada que ignora e não distingui a certeza de continuidade quando se olha onde ainda não se enxerga, refletindo uma forma de pensamento oprimida por divindades nulas ante a própria sapiência, quase uma descrição de limbo existencial que flutua entre “tabus gravitacionais” na obscuridão da ignorância impermanente que anseia conhecimento, mesmo que este seja temerário ao punitivismo das próprias descobertas, que dê certo, gerarão mais perguntas.

“Javé pode não nos castigar, mas pode permitir que as consequências de nosso julgamento se abatam sobre nós”

Avaliação: 5 de 5.

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