Péplum | A amoralidade hedonisticamente trágica da antiga Roma

Blutch adapta livremente a Satíricon de Petrônio em uma narrativa corajosamente idiossincrática que traduz a veneração iconófila do amor e dos prazeres carnais de um homem traído por sua própria jornada.

Algemas doutrinárias do pós-cristianismo tendem a sustentar nossa percepção de moralidade preconizada ante a idealização abstrata do “pecado institucional”. Deste prisma enviesado, o ato de julgar é uma ação “natural” que refuta qualquer desvio de comportamento preceito. Dito isso, recomenda-se (como no prefácio) que a leitura de Péplum deva ser feita sem o filtro da moral, sem apontamentos inquisidores que validam o fictício caminho do moralmente aceito, pois Blutch nos entrega uma narrativa que isenta seus personagens de julgamento, retratando o cotidiano de uma Roma em sua iminente queda e construindo uma espiral de eventos que confluem tragicamente para uma jornada violenta e hedonista.

Péplum narra os acontecimentos da descoberta que um grupo de exilados realiza ao encontrar uma misteriosa mulher congelada em uma tumba nas fronteiras do império. Incapazes de degelar ou violar a fria prisão solitária da dama que lhes causa obsessão e veneração instantânea, o grupo vaga por um ano carregando tal fardo, o que lhes consome muito das capacidades físicas e mentais, potencializando conflitos e paranoias que culminam tragicamente no assassinato do exilado Públio Cimbro (que é irmão de um senador do império) por um dos homens que o acompanhava na empreitada, e que ao qual usurpa sua privilegiada identidade de membro da classe nobre de Roma. O que se segue é uma visceral jornada de sobrevivência deste falso Patrício junto de sua preciosa e amada dama congelada.

Abordando pautas amoralmente hedonistas comuns à época, a HQ nos descreve de forma “ficcionalmente histórica” eventos com belíssimas passagens poderosamente ilustradas que acompanham todo um gestual dramático dos personagens que são sustentados em textos poéticos, emulando diálogos eruditos que são referências diretas ao teatral “tragidrama” greco-romano. Ao fim, Blutch nos arremata uma conclusão presumidamente crua e infeliz, forçando seu protagonista a refletir sua própria jornada ante traição ilusória de seu amor iconófilo, extraindo deste falso Públio Cimbro uma última sentença irônica ao amor em detrimento da miséria do povo, talvez uma alusão implícita ao Deus Saturno, o canibal de seus próprios filhos.

“Quando Numância foi tomada por Cipião, encontraram mães apertando contra o peito os corpos dos filhos semidevorados”

Avaliação: 4 de 5.

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