A Terra dos Filhos | Semeando a origem proto apocalíptica de nossa prole

Sob a premissa de paternidade funcional em um legado pós apocalíptico, HQ de GIPI flerta com as irracionais e definitivas fundamentações “intelecteológicas” da sociedade ao mesmo tempo em que nos entrega o rascunho pessimista/absurdista do futuro em seu ignóbil e permanente retrocesso.

A anseio do fim de mundo é o recordatório inconsciente do nosso poder auto destrutivo, o instante decisivo na cega decisão de um caminho que nos leva ao interminável epílogo que vai sendo apenas revisado antes de sua conclusão. Digamos que GIPI tenha sabidamente ignorado as causas já explícitas que levarão ao eminente apocalipse, pois sua obra se desdobra na ressignificação do amor de um pai em um futuro visceral que é resíduo de nossas atuais convenções nocivas de sociedade.

A HQ narra a sobrevivência de um pai e seus 2 filhos em um mundo primitivo e supostamente envenenado, pautado por regras extremas que conflitam contraditoriamente a ternura das relações familiares e sociais. Nessa dinâmica, a obsessão por um caderno esbarrará na incapacidade dos garotos em decifrá-lo.

A obra nos traz diálogos suprimidos e truncados junto a termos que parecem ter perdido o sentido como “Uberpadre (?)”, “GIGA”, “Likes” e “Deus Phoda” (o “Mito” atual?!) nos aguçando a curiosidade de tal digressão etimológica. Quanto a arte, os belíssimos e hachurados desenhos se valem do propósito de metaforicamente nos entregar esse rascunho de futuro pós apocalíptico.

Na ausência de minha capacidade didática e analítica de traduzir a complexidade da obra, novamente atenho-me ao cenário político social e a nossa profunda letargia perante o Absurdo que, enquanto corrente filosófica, se vale da vasta escuridão em que o farol da racionalidade não ousa iluminar. Diante do blackout da servidão “divina”, homens empossados de poderes dogmáticos e “doutrinários” que não compreendem, cada vez mais adentram (junto de seus fiéis e não fiéis) as trevas que engolem suas próprias sombras, lhes subtraindo o vislumbre singular de suas já não mais reconhecidas formas (canibais de faces, desumanização?!), afogando em um lago pútrido e venenoso (assim como na HQ) seus sonhos, desejos e propósitos (a prole). A empatia em desuso reforça a realidade do assassinato diário de ideais plurais de coexistência, subjugando o que outrora conhecíamos simplesmente como sendo Humanidade. Bem vindos ao início de mais 1 (e outro) próximo fim as futuras gerações, pois já estamos semeando a inevitável terra de nossos próprios filhos.

“os cadernos não dizem nada … não tem boca”

Avaliação: 5 de 5.

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