O Diabo de Cada Dia | A “vontade” de Deus no inferno dos homens

Adaptação de livro homônimo expõe a fé subjugada pela ação humana em uma história trágica que remonta as veredas do mal pela filosofia de Jean-Paul Sartre.

Desde a ilusória sensação de que o mundo perdeu sua “pureza”, somos impelidos a criar ficções que restabeleçam algum tipo de sentido no caos que sempre vigorou a existência que aqui discutimos. Trilhar o caminho da vida sem muitas reflexões nos guia ao pantanoso terreno que bifurca entre benção da ignorância e a pseudo sabedoria espiritual das religiões. Aniquilar a fé e referenciar o indivíduo como sendo o motor caótico de sua maléfica e divina natureza, é a crítica com viés Sartriano que o filme “O Diabo de cada dia” tenta nos trazer, sobretudo por sua abordagem ateísta.

Acompanhar a jornada de Arvin Russell e a espiral de acontecimentos que o norteiam é como tomar um café excessivamente amargo e real. Carregada de um parecer solenemente fatalista, a cena que define o longa está explícita no diálogo Arvin e o Sheriff Lee Bodecker após a trágica e impactante descoberta de um evento catalisador na vida do protagonista. Sob a cruz artesanalmente criada pelo pai, Arvin exemplifica a perda de sua fé, o instante de ruptura com a ilusão do divino e sua real preocupação com o diabo visível que está invariavelmente sob “a loucura condenatória do livre-arbítrio dos homens”, bem como outrora filosofou Sartre. As tramas paralelas que convergem para o clímax do filme estabelecem a ideia de caos controlado sob ordem do narrador onisciente (talvez um falso Deus), e servem como uma grande elipse narrativa que insurge na essência precedida da existência de Arvin, o tornando sobrevivente de sua miserável vida, apenas uma história a ser contada.

Em tempos de idealização religiosa político/social advinda de nossa liberdade de escolha para tal, refletir sobre nosso próprio inferno é concluir que de fato somos parte dele. A esperança de restaurar pureza e valores morais fictícios e doutrinários não anula a essência corruptível do homem em sua eterna condenação de liberdade. Ao fim, um tronco de oração será somente um dispositivo de fé que não funciona, assim como qualquer figura política que se utiliza da religião para alavancar seus próprios interesses incólumes. O inferno está aí para quem quer vê-lo, o diabo nunca foi tão diário e real com o espelho do OUTRO refletido a si mesmo.

” … isso é um tronco de oração … mas não funciona muito bem”

Avaliação: 4 de 5.

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