Pedro Páramo | A cegueira individual de nossa própria condição senciente de realidade

Narrativa fragmentada de Juan Rulfo sobre memória, ecoa as cicatrizes de um México castigado pela sua própria história na atemporalidade da onírica cidade de Comala.

Entre o hipotético agora do distante ontem e o sempre inalcançável amanhã, se situa um registro experiencial chamado vida. Somos definidos por este recorte de período que nos interpõe a uma suposta existência baseado em momentos impressos na consciência e memória que, em tese, carregam o real do presente. No romance de Juan Rulfo, esse tipo de reflexão é magistralmente explorado nas cicatrizes do povo mexicano, que incapaz de enxergar sua própria condição, evoca sua existência na imortalidade da memória.

                A obra trata da jornada de Juan Preciado na busca pelo pai, o lendário e temível Pedro Páramo. Nesta procura, somos conduzidos a Comala, um lugar vítima de sua própria história, retrato de anos de interações violentas e trágicas entre seus habitantes. Na proximidade de encontro com o pai, adentramos por entre os fragmentos singulares dos personagens que se misturam em uma narrativa coletiva e inconsciente da inevitável realidade que os cegam.

A cidade de Comala em essência é a protagonista deste romance e reforça o tom regionalista da obra. Sua aura delimita um tênue véu sobrenatural que vai se acentuando ao decorrer dos fatos. Pela composição dos fragmentos de memória, entendemos as cicatrizes que inevitavelmente representam o sofrimento deste povoado. Juan Rulfo deixa implícito uma crítica mordaz a Revolução Mexicana e a Guerra Cristera, onde os conflitos político/sociais deflagaram chagas incuráveis no cerne do povo mexicano. O recurso de elipse narrativa costura a obra de forma magistral na resolução de um elemento chave da história, criando uma transposição de planos existenciais em 2 narrativas paralelas (memória/consciência e fato), é lindo de ler. A genialidade do livro e seu flerte com o sobrenatural, resultam em uma obra prima precursora do Realismo Mágico.

Em tempos de sofrimento do nosso povo, a obra se desdobra sobre nossa cegueira existencial e dialoga com nossa percepção imortal do presente. Nossa narrativa contemporânea dirá muito mais do que as singularidades dos indivíduos, através das dificuldades do presente, carregaremos para sempre uma mancha desse tempo de trevas, nos resguardando ao direito de sermos ecos que contarão uma difícil história para posteridade.

“Nada pode durar tanto tempo, não há memória tão intensa quanto possível que não apague”

Avaliação: 5 de 5.

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