Fleabag | É melhor rir do que chorar?

A comédia dramática e desconfortável de Phoebe Waller-Bridge questiona o “está tudo bem” defensivo e humorado de nosso frágil escudo psicológico.

As respostas automáticas do “como você está?” e derivados sempre trazem à tona mais do que aquilo que nós necessariamente ansiamos dizer. É fato que a pergunta nem sempre expressa uma preocupação real do questionador e a resposta esperada para a maioria esmagadora das vezes é um “está tudo bem” que basicamente não responde muita coisa. Este tipo de comunicação é algo puramente protocolar nas relações sociais em nosso cotidiano e dizem muito sobre o quanto reprimimos nossas emoções em prol de uma falsa sanidade/felicidade enlatada e imposta pela sociedade. Fleabag é uma desconstrução psicológica do indivíduo enquanto um ser complexo e problemático, que tem muito mais a dizer do que o já citado “está tudo bem” ancorado ao sorriso desconfortável de sua própria comédia dramática.

A série narra o cotidiano feminino sob o olhar pessimista e humorístico de Phoebe Waller-Bridge diante das adversidades da vida. Problemas como falta de grana, relação familiar, sexismo, luto e depressão são abordados de maneira cômica, mas transmitem uma carga melancólica que fica sob a fachada social da protagonista e que se acentua a cada episódio. Fleabag emula os micro monólogos narrativos e imorais que praticamos dentro de nossas cabeças quando interagimos com terceiros. Neste tipo de recurso narrativo onde há o rompimento da quarta parede, se deparar com Phoebe conversando diretamente com você de maneira desnuda e crua sobre seu verdadeiro ponto de vista, o tornará quase como um terapeuta ativo de Fleabag, que tenta compreender as atitudes escapistas da protagonista em meio ao turbilhão emocional em que se encontra, quase um pedido de socorro.

O apelo existencial feminino e humano sufocado pela hipocrisia moralista é o grande debate que a série se propõe a fazer. Na jornada de Fleabag, iremos rir nervosamente e nos enxergar como seres humanos falhos que escondem em seus frágeis e abstratos escudos a dor e a complexidade inerente de se projetar forçadamente humorado e feliz para com a sociedade, mesmo com nossos problemas mais evidentes. A leitura mais perspicaz da série, elucidará os transtornos decorrentes de uma depressão não encarada, uma negação aflitiva que cobra seu preço quando tentamos curar uma ferida profunda com apenas uma band-aid multicolorido e engraçado de seu personagem favorito.

É por isso que eles colocam borrachas no final do lápis, pessoas cometem erros

Avaliação: 5 de 5.

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