O Farol | Sob a luz da insanidade

A loucura e o horror monocromático que reforça o poder da narrativa simbólica do cultuado diretor de A Bruxa.

O simbolismo na arte é um canal de comunicação poderoso para com o subconsciente. Para além dos preceitos de linguagem objetiva e tradicional, muitas vezes uma mensagem é melhor absorvida quando esta não é enfática em sua transmissão. O mais recente trabalho de Robert Eggers se aproveita desta subjetividade e de semiótica para implodir o sentimento inquieto de razão lógica que sua obra felizmente não oferece.

O Farol narra o cotidiano tedioso de dois faroleiros em meio ao isolamento que a própria profissão exige. Thomas Wake, o empregador e mais experiente, dita as rotinas e tarefas ao novato e explosivo Ephraim Winslow. A relação das personagens é conturbada muito pela dinâmica de antagonismo estabelecida na hierarquia formal das atribuições de cada um. Ephraim questiona as ações e motivações bizarras de Thomas em relação a responsabilidade exclusiva da luz e sobre o porquê de não poder se aproximar da simples e misteriosa tarefa. Esse conflito dual ditará uma tensão crescente e desconfortável que culminará em um clímax altamente vertiginoso e simbólico.

O dualismo aliás é um recurso bastante utilizado na obra e irá se manifestar sob diferentes maneiras dentro do longa (luz e sombra, velhice e juventude, loucura e sanidade, preto e branco), logo a decisão estética do formato monocromático ressalta a genialidade do diretor nessa espécie de rima narrativa.

O filme tenta emular os desprazeres da convivência em isolamento juntamente com a simbologia impressa nas ações de cada personagem de forma que estas definirão suas próprias representações míticas e destinos. O mergulho na espiral destrutiva de Ephraim se inicia pela busca e entrega do mistério da luz e é constituída de sonhos e visões de tentáculos (olá H.P. Lovecraft), imagens distantes de uma sereia e o agouro perpétuo de gaivotas. A austeridade volátil e premonitória de Thomas provém do imagético poder masculino sob a representação fálica e orgástica do Farol, privilégio de poucos. A interpretação desses simbolismos elucidará o paralelo com a mitologia ocidental arquetípica de embate entre deuses e humanos juntamente com suas respectivas consequências aos envolvidos.

Como grande fã da narrativa subjetiva, O Farol é uma excelente desconstrução arquetípica de mitos baseados na insanidade humana onde a realidade é mais real em preto e branco.

Se a morte pálida, com pavor agudo, fizer o oceano ceder a nossa cama, Deus que ouve as ondas rolarem para salvar nossa alma suplicante

Avaliação: 5 de 5.

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