O Eternauta 1969 | A realidade alternativa do povo argentino da década de 60

O remake do clássico quadrinho argentino de Oesterheld potencializado na acidez crítica de um regime opressor e materializado magistralmente na arte onírica de Breccia.

A relevância de uma obra que traduz uma lembrança sombria, marcada por um regime ditatorial perverso que culmina no “desparecimento” de seu próprio autor, não poderia ser classificada apenas como ficção apenas por se tratar de um enredo de guerrilha contra uma invasão alienígena. A realidade estava sendo exposta no branco do papel, seja sob o véu dos flocos de neve que ceifam milhares de vidas, seja na clandestinidade dos poucos sobreviventes que insurgem contra essa força opressora e reativa a uma parcela mínima existência que a questione como ordem e razão. O Eternauta 1969 é um registro histórico, uma realidade alternativa daquela Argentina do final da década de 60, um desabafo gráfico que anseia por sobrevivência em meio ao caos. O tempo permitiu que esse tal desabafo de Oesterheld fosse ecoado para além de sua vida, perdida entre tantas outras nos sombrios dias de ditadura argentinos.

Inspirada originalmente por Guerra dos Mundos de H.G. Wells, a trama se desenrola no embate entre humanos e alienígenas invasores. A possível sobrevivência a essa invasão evocará uma figura que se projetará no tempo, uma ferramenta de comunicação alarmista e etérea para com os horrores de um futuro apocalíptico ao presente perceptível e real.

O roteiro distópico de Oesterheld se mescla de forma bastante orgânica a arte experimental de Breccia. A sintonia de imagem e argumento nos insere em uma espécie realidade inconsciente, anuviada pelos flocos de neve mortais e impondo uma camada quase translúcida ao horror invisível de morte. A mecânica onírica também se aplica as personagens, que por vezes nos confundem em meio as sombras pesadas e ao caos calculado das colagens quadrinizadas de Breccia, emulando uma espécie de sonho febril.

Sabendo dos problemas enfrentados na época de publicação deste remake, o final acelerado é compreensível dado ao cancelamento repentino da obra, ainda sim a trama se encerra de forma bastante coesa pelo poder de síntese de Oesterheld, que opta pelo recurso cíclico da narrativa que se retroalimenta em um possível novo início.

O resgate deste recorte de memória de nosso país vizinho que O Eternauta 1969 evoca, nos remonta ao nosso próprio proto apocalipse democrático brasileiro, evidenciando a intolerância e o culto ao ódio de seus precursores, enraizando um tipo de consciência suicida que diariamente definha com o tempo, subtraindo as horas de sua própria liberdade, de seu próprio direito de subsistir nesta névoa insalubre de ideologias extremistas de direita. A voz não silenciada de Oesterheld através de O Eternauta estará perpetuamente sussurrando as resistências para que por ela, acordemos deste pesadelo e tomemos ciência de que vidas sempre valerão mais do que um regime autocrático e facista.

“todos mortos ou morrendo, pouco terão a sorte de sobreviver”

Avaliação: 4 de 5.

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