Boa noite Punpun | A melancolia de um … “pássaro”?!

Obra do mestre Inio Asano adentra a essência do que é ser um indivíduo desencaixado de seu próprio mundo.

Acredito que todos em algum momento já tenham se questionado internamente sobre as vontades do mundo que se chocam com nossas próprias escolhas de vida e desejos de felicidade. O egocentrismo decorrente desse tipo de pensamento projeta imagens de si totalmente desconexas, o fazendo acreditar ser um indivíduo à parte e totalmente incompatível com a realidade que o circunda, pois ela, aparentemente “conspira” contra você, e ao anoitecer, no boa noite que você se permite, a esperança de dias melhores sempre estarão no amanhã, quase que fugindo diariamente de você. Se identificou? Então seja bem-vindo ao universo de Punpun!

Boa noite Punpun, é uma obra reflexiva, intimista e carregada de melancolia. Cada um de seus 7 volumes tem o poder de brincar com seus frágeis sentimentos e a norma é se atentar para que suas lágrimas não danifiquem o papel do seu exemplar. O mangá narra a história de Onodera Punpun, de sua infância a seus 20 anos em um slice of life que até poderia ser padrão, mas o autor opta em inovar ao retratar seu protagonista como uma espécie de pássaro minimalista.

A vida de Onodera, é problemática, logo no começo do mangá, somos apresentados a uma complicada relação de convivência entre os pais, e como esta desencadeia transtornos psicológicos que nosso pequeno pássaro carregará por toda a obra. Seu tio, Yuichi Onodera, é um tipo de figura paternal em meio a essa fase, porém, traz consigo seus próprios problemas. É ele que ensina Onodera a evocar “DEUS”, uma figura hilária representada por uma colagem fotográfica de uma pessoa real de óculos que vive rindo e fazendo piadas dos questionamentos e súplicas de Punpun, agindo quase como um terapeuta ou uma faceta da personalidade amoral do nosso protagonista.

Já no ambiente escolar, a introdução de uma nova colega de classe mexe com sentimentos que até então Punpun desconhecia, o amor e sua obscuridade, e desta somos apresentados a tempestuosa Aiko Tanaka. Ainda temos os colegas de infância, Seki Masumi e Ko Shimizu, que possuem um dos mais belos arcos de amizade de toda a trama.

Na fase adulta, Punpun conhece uma outra leva de personagens e se envolve com Sachi Nanjo, uma aspirante a mangaká, do qual se “apropria” de um insight nostálgico de Onodera no argumento de seu novo trabalho. A dinâmica dos dois evolui para um relacionamento extremamente real, afetuoso e contemporâneo, ainda que Punpun se reserve o direito de amar a única pessoa por quem sempre foi apaixonado, Aiko.

O líder de uma seita misteriosa, Toshiki Hoshikawa, mais conhecido como Pegasus, é a personagem mais excêntrica da obra e da um quê de realismo fantástico ao mangá. Seria facilmente adaptado para um spin off, apesar de muitos não gostarem de sua participação mesmo que indireta na história de Onodera.

Boa noite Punpun, apesar de parecer não apropriado e amedrontador por sua abordagem de temas como depressão e outros transtornos psicológicos, é escrito de forma belíssima, algo já esperado de Inio Asano, mesmo autor de Solanin, Nijigahara Holograph e Cidade da Luz, todos já publicados por aqui. Sua linguagem universal, nos toca em pontos em comum, quase que acessando nossos registros Akáshicos e decodificando nossos sentimentos em relação a nossa própria existência. A simplicidade da alternância de arcos e como eles se interagem, mesmo que aparentemente desconexos, é de uma genialidade que somente mestres como Asano são capazes de produzir. A arte é sensacional, uma das melhores splash pages que já vi, está em Boa noite Punpun. As decisões criativas, como na estética de comunicação de Punpun ou na representação evolutiva e humanoide principalmente nas cenas de sexo do protagonista são brilhantes, e valem pelo impacto de estranheza que o autor quis passar, sem mencionar DEUS, que lhe rancará risos nervosos em meio densidade melancólica do mangá.

De angústias a inseguranças, somos sugados para a complexa mente depressiva de Punpun, e de dentro, enxergamos os tons de cinza de seu mundo e como este o afeta. É possível sintetizar o mangá em uma promessa não cumprida a seu principal interesse amoroso, Aiko Tanaka, e esse recorte é o grande combustível que emprega na obra uma volatilidade amedrontadora a própria existência de Punpun, porém ainda temos uma gama de personagens extremamente críveis em suas motivações e com seus próprios arcos dentro da trama que irão convergir para um final corajoso e inesperado.

Boa noite Punpun é uma leitura necessária e exploratória de nossa própria essência, é impossível não se enxergar através dos espelhos e se identificar com os dilemas contextualizados pelo autor. Seja pelo viés filosófico ou pela crueza do que é ser um indivíduo, o boa noite a Punpun será ecoado em suas memórias de leituras que definitivamente valeram a pena.

melhor splash page ever!

Avaliação: 5 de 5.

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