Kingdom | A epidêmica “zumbistoriografia” coreana

Sob olhar oriental do gênero zumbi, produção original Netflix consegue entreter em meio a saturação do tema.

Recordo que em 2019, a série Kingdom surgiu no catálogo da gigante do streaming sem muito alarde, ali no carrossel de produções originais, junto de monstros como Dark, A Maldição da Casa Hill e Mindhunter, e seu banner em nada remetia aos mortos vivos famintos por carne humana, na verdade a impressão que tinha era se tratar de mais uma série histórica ao melhor estilo oriental. Esse bait me impactou positivamente ao descobrir que o argumento era uma mistura de historiografia coreana medieval e zumbis.

Kingdom narra os acontecimentos de um reino após a Guerra Imjin no qual Japão, China e Coréia se envolveram mutuamente durante aproximadamente 7 anos no século XV e que ocasionou o colapso social coreano visto na trama. Em meio a essa reconstrução de Coréia, a figura do Rei Joseon adoece de forma misteriosa, gerando no povo incertezas e inúmeros boatos sobre o real estado de saúde tão quanto a governabilidade do chefe de estado, já que o Lord Cho Hak-Ju aparenta ter tomado as rédias do reino, cabendo ao filho bastardo do Rei, o príncipe Chang, descobrir a terrível verdade que o espreitará.

A série consegue ser original em um gênero já batido do universo pop, os famigerados zumbis. Não que a origem dos mortos vivos de Kingdom seja extremamente autêntica advinda do clichê de uma epidemia, mas as características comportamentais dos infectados em concordância com as condições atmosféricas juntamente com suas forças e fraquezas, são pontos positivos e que geram impacto dramático em muitas de suas cenas.

Na primeira temporada, temos a jornada do príncipe Chang e sua busca pela veracidade dos acontecimentos que envolvem conspirações políticas de seu reino diante de um surto que transforma pessoas em zumbis. Chang é o estereótipo do líder em treinamento que vai se descobrindo nas decisões extremas que tem de tomar. A cada episódio, vamos notando sua crescente evolução e compramos sua luta por sobrevivência e justiça em uma sociedade segregada pela miséria do pós-guerra. Se juntam ao núcleo do príncipe seu guarda pessoal o carismático Moo Young, a aprendiz do médico da família real Seo-Bi, um misterioso camponês Yeong-shin e o patético magistrado de Dongnae, Cho Beom-pal que ainda é sobrinho do Lord Cho Hak-Ju. A dinâmica dos 5 se resume a sobreviver em meio ao caos ao mesmo tempo que tentam desesperadamente encontrar a origem do surto que tem ligação direta com o Rei Joseon e as condutas questionáveis de seu principal conselheiro, o Lord Cho Hak-Ju. O season finale preparou o terreno para uma segunda temporada ainda melhor, onde a ação das batalhas evidência um maior investimento na produção da série.

O retorno ao reino do príncipe herdeiro Chang agora fortalecido dos seguidores do Lord Ahn Hyeon (o lendário herói da recente guerra contra o Japão), é a grande síntese dessa segunda temporada. Chang e seus aliados prosperam penosamente as hordas cada vez maiores de infectados e vão ganhando confiança nessa jornada de volta. É possível agora enxergar o quanto o príncipe evoluiu como líder e o carisma que carrega junto a seu grupo impõe uma verdadeira eminência de merecimento ao trono (um grande oi a Daenerys). Também contemplamos nessa temporada, a descoberta de uma possível cura para a doença e por mais simplista e preguiçosa que a seja em alguns aspectos, impõe um clímax fantástico ao seu final. As inúmeras reviravoltas da trama, só elevam a qualidade do roteiro que sabe usufruir de seus elementos previamente apresentados para potencializar a narrativa em situações que aparentam não ter escape para Chang e companhia.

Kingdom é uma série que diverte, desde a belíssima contextualização histórica de sua produção, até seu roteiro extremamente simples, porém dinâmico e ritmado com nosso anseio de torcida genuína pelo príncipe em sua sobrevivência e objetivo. A análise mais profunda de Kingdom nos aproxima de uma realidade factível de propagação de doenças/vírus, notamos o quanto a classe mais vulnerável de uma sociedade sucumbe prioritariamente as injúrias arbitrárias de seus governantes e que corrigir um erro que já transgrediu o limite de sua possível solução, pode ocasionar o colapso sanitário, de uma província, de um estado, de um país.

Sem dúvida alguma, em comparação a outras séries do gênero, é uma fagulha brilhante em meio a uma fogueira quase apagada que certamente já não andava aquecendo o coração de muita gente.

Avaliação: 4 de 5.

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